- Você vem sempre aqui? - perguntou Adão a uma passarinha que estava naquele galho, a sua altura. Ele tinha ajeitado o cabelo, jogado uma água nos dentes e passado umas flores no pescoço pra dar um cheiro.
Era que ele estava se sentindo triste e sozinho. Seus amigos todos tinham alguém que os correspondessem, que fossem iguais a eles. Então ele chegou junto dos porcos, tomou alguns copos de caldo de cana com eles e se lambuzou na lama. Depois, decidiu tomar uma atitude. Foi aí que tomou um banho no rio e se produziu do jeito que disse. Agora, estava tentando conquistar a primeira fêmea que encontrou, mas a passarinha logou voou do galho, rindo do homem. Ele até que correu atrás dela, mas já não podia alcançá-la.
Ele a estava procurando entre as nuvens, onde tinha sumido, quando duas pombinhas pousaram em seus ombros.
- E se você pedisse a Deus! - disse uma delas.
- Isso, peça a Deus que faça, novamente do barro, alguém que lhe corresponda e seja como a sua cara metade – disse a outra.
- Que boa ideia! - exclamou o homem.
- Você pedirá a Deus? - perguntaram elas.
Mas o homem já estava preparando o barro.
- Vamos ver, como eu posso fazer outro igual a mim e que me corresponda.
Observando de longe, ambas as pombinhas concordaram:
- Não é bom que o homem esteja só.
Olhando-se pelo espelho d´água, Adão ia modelando o barro conforme a sua imagem e conforme a sua semelhança, por sua própria conta.
Enquanto isso, Deus passeava por ali, até que se encontrou com Adão, todo sujo de barro. Por impulso, pelo susto e depois por medo, Adão disparou para longe, correndo para dentro da mata, deixando seu boneco de barro, disforme, erguido em frente a Deus.
O Todo Poderoso olhou curioso a escultura, com um leve sorriso no rosto, como de um pai que vê um desenho borrado do filho pequeno dizendo que era ele. Deus riu e se compadeceu de Adão. Olhando para as pombinhas, disse:
- Não é bom que o homem esteja só.
Uma das pombinhas confirmou:
- Foi o que eu disse pra ele.
No meio da mata, Adão corria sem pensar, fugindo não sabia de quê. Foi aí que começou a chorar muito, chorar alto, era o primeiro choro. Parou e sentou-se encolhido numa árvore, chorando incontrolavelmente, por muito tempo. Como todo choro dá sono, Adão dormiu, assim mesmo, no meio da tarde. Apesar de dormir chorando, o homem não sabia, mas estava mergulhando no mais feliz e agradável de todos os sonhos. Um sonho tão magnífico que ninguém poderia narrá-lo. Era um sonho que mantinha Adão entretido, sem perceber que seu corpo passava por transformações que iriam mudar a sua vida completamente.

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