De repente Adão abriu os olhos, mas estava tão claro que ele logo voltou a escondê-los: era manhã do sexto dia.
Tinha recebido uma rajada de ar no pulmão e depois sentiu seu sangue correr, como quando nosso braço vai deixando a dormência, sabe? Ele movimentou os dedos das mãos e dos pés devagar, deu uma torcida no pescoço. Só depois pensou em abrir os olhos, mas estava tão claro que ele logo voltou a escondê-los.
Custou para abrir de novo. Mas abriu, devagar, e as luzes do dia entravam de mansinho pelas frestas das cortinas dos olhos. Ali, deitado, ia descobrindo o mundo, enquanto o amarelão solar ia tomando a forma das nuvens e do céu azul, para onde apontavam os olhos de Adão; depois começou a ouvir as águas do rio, os pássaros, e os bichos e o vento, e descobriu também o sentir molhado da grama em suas costas, e o cheirar, ah!, sentiu o cheiro das plantas e das frutas das árvores que o cercavam. Piscou. Piscou de novo. Era estranho, Adão estava se descobrindo. Sentiu-se pela primeira vez, era homem feito. Ia então descobrindo seus movimentos. Mexeu o pescoço novamente, sentiu aí uma dorzinha, aquela dor gostosa que a gente tem quando acorda de um sono bom, e dá aquela espreguiçada. Era a dor do primeiro movimento. E como um grilo lhe pulasse no rosto, descobriu o impulso ao golpear-se com as mãos na testa, tentando defender-se do inseto. Aí Adão já estava sentado. Admirado. Boquiaberto.
Ergueu-se, porque se sentia poderoso agora. Ia descobrindo todos os movimentos possíveis. Primeiro, dobrou os joelhos ameaçando um pulo, sem, no entanto, tirar os pés do chão. Aí, movimentou os quadris, e os braços, e depois bem rápido. Descobriu o pulo, pulou uma, duas três cada vez mais alto, aí mudou de lugar, descobriu o passo, e estava a um passo de descobrir o correr, e começou a correr, e era tão bom, o vento batendo no rosto, sentiu os músculos do coração se apressarem, o sangue correndo como nunca pela primeira vez, o vento no rosto, corria cada vez mais veloz como nenhum homem jamais correu depois dele, corria vendo todo o mundo maravilhoso e tudo era novo. Correu, correu e tão maravilhado que sentiu um vento em sua garganta e as cordas vibrarem, e formigar a barriga, e o coração batendo, e franzir a testa, era riso era alegria, ele estava descobrindo a maior gargalhada do mundo, que começou tímida, mas riu muito, à beça, teve que parar.
Ficou sério, olhou para o seu mundo, sobre o qual ele terá o domínio a partir daquele momento. O seu coração agora era vigor. Respirou, inflou o peito. Ergueu o queixo como mostrando autoridade, e inventou o maior grito de todos os tempos. A explosão saiu-lhe das entranhas e chegou aos ouvidos do animal mais feroz e mais longínquo do recente planeta. Adão gritou.
Não perca o capítulo 2 de O Romance de Adão e Eva.

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